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domingo, 23 de setembro de 2012

Crescimento das cirurgias íntimas


23 de setembro de 2012. | N° 1625

ESTÉTICA

AUTORA DO PRÓPRIO CORPO

    Para a psicóloga Dâmaris Oliveira Batista da Silva, o crescimento das cirurgias íntimas é sintoma de
 um comportamento que tem a ver com aceitação e também com uma sensação de “tenho o corpo que 
quero e posso, não o corpo que herdei”. A seguir, ela analisa o fenômeno.

A busca por esse tipo de cirurgia revela a eterna insatisfação feminina com a beleza?

Dâmaris – Entendo o crescimento das cirurgias estéticas vaginais mais como um sintoma do
 nosso mundo contemporâneo do que algo intrínseco à suposta natureza feminina. Se formos 
observar o que o nosso mundo atual fala em diversos meios como literatura, mídia, tendências de
 consumo, moda, vemos o tema “beleza” cada vez mais presente. É o discurso do ser alto, magro, 
nariz pequeno e lábios gordinhos dito de muitas formas. Mexemos em tudo. Alteramos forma, cor e
textura, até na região do nosso corpo que nos é mais íntima. Querer ser belo de acordo com os 
padrões de um grupo significa querer ser aceito, ou melhor, querer o olhar do outro grudado a si. 
Sintomas do nosso mundo que põe a beleza do corpo como um signo de pertencimento a um alto valor.
 Além desse padrão cultural que constrói comportamentos coletivos, a tecnologia e as facilitadas 
condições de pagamento facilitam essas possibilidades, corroborando a construção da sensação que
 chamo de “ser autor do próprio corpo.”

Os médicos dizem que muitas mulheres revelam ter mais prazer sexual pós- cirurgia. Mas que tecnicamente
 não há nenhuma melhora no prazer por causa do procedimento. De onde viria esse up na relação sexual?

Dâmaris – Ela se submeteu a um padrão estético confirmado pela rede social a que pertence; leu 
como deve ser o design do corpo; conversou com um especialista e submeteu-se a uma intervenção.
Em sua mente, instala-se a percepção de que “agora estou de acordo com...”. E, assim, a sensação: 
estou bem, sinto-me bem, serei aceita, não tenho medo, sou livre. Sexo bom requer mente 
livre de amarras. O sentir-se feia e inadequada pode ser um impeditivo para o envolvimento. 
Pense comigo: depois de um dia de beleza completa no salão, você não se sente mais à vontade
para ousar na lingerie e conquistar o olhar do amado? O que dirá de um up no corpo, 
justamente em algum detalhe que freia a sua entrega? Apenas destaco que o que achamos 
bonito não nasceu em nossa cabeça simplesmente, mas veio de um outro com o qual nos
 relacionamos, seja a novela, o filme, a revista, a amiga, o amado.

A mulher faz uma cirurgia como esta para ela mesma ou para o parceiro?

Dâmaris – Encontraremos homens que pedirão essa cirurgia como um presente da parceira 
para si mesmo; outros que criticarão esse investimento. Em princípio, a mulher que
 se submete a esse procedimento tem motivações outras das que transformam o corpo 
em uma região visível publicamente. Entendo que há um outro que goza da relação privada 
com essa mulher e que demanda e confirma a necessidade dessa ação. Pode ser o
 parceiro atual, ou um preparativo para ter a qualificação estética necessária para sentir-se bem, 
à vontade e livre para envolvimentos idealizados. Transformar o corpo para um ritual de inserção 
em uma relação é procedimento típico da humanidade e presente em diversos momentos da 
nossa história e em muitas culturas. Transformamos o corpo para a fé e o trabalho, para a guerra 
e para o amor e para o sexo.